sábado, 1 de novembro de 2008

O Caminho de São Sebastião do Cais do Porto - parte II

Eu já percebi que escritor tem que ser muito esperto, principalmente escritor "de araque", porque o leitor é muitas vezes preguiçoso, impaciente, intolerante... Pensando nisso eu dividi esse "post" em duas partes. Vamos à segunda !

Uma hora a festa tem que acabar... e no meu caso eu não sei nem se ela começou. O evento foi irônico, satírico, "Nelson Rodrigues", enfim, a vida como ela é.
Fui embora sozinho, mas antes de pensar em como, eu resolvi tentar resgatar o pouco de Chi que ainda restava no meu corpo. Estava no fim da reserva !
Porém, contudo, entretanto, todavia, o "espírito russo" ainda dominava minha mente e eu me vi num boteco (aquele original do ovo colorido) pedindo um caldo de cana e um queijo quente. Aqui era o espaço perfeito pra um palavrão, porque vai ser burro assim lá no...
Entubei a gororoba e quando saí do "estabelecimento" pensei: como eu vou pra casa ?

Esse foi um momento fundamental. Eu estava exausto, doente e triste, precisando restabelecer o meu prumo. Simplesmente comecei a andar e depois dos primeiros passos vieram outros e mais outros e quando eu me dei conta estava caminhando na direção da minha casa.
Ao me desligar temporariamente do meu eu e prestar atenção à minha volta, eu me deparei com um cenário surpreendente. Eu estava no meu Caminho de Santiago de Compostela, que hoje batizei com o nome que dá título ao post.
Pra quem não sabe esse é um caminho famoso de peregrinação espiritual, onde as pessoas vão em busca...

Todos os elementos estavam lá, o medo, a dor, a dúvida, o silêncio, o vazio, a tentação, a luz e as trevas, incluindo as trevas por falta de iluminação pública !
A cada passo que eu dava meu coração batia mais forte. A morte estava à espreita. Era tentado e testado a todo momento e por um instante vacilei e cheguei a achar que existia uma única diferença entre o cais do porto e a capital da Galiza; a ausência de Deus. O grande arquiteto parecia ter abandonado aquele lugar e o relegado às profundezas do inferno. Adjetivá-lo com uma única palavra é simples: nefasto.
Os quarteirões iam passando e chorando por dentro eu pedi que estivesse errado, que algo abrisse meus olhos para a impossibilidade do abandono divino. Segui em frente, enfrentando todos os meus mostros, um de cada vez.
Em meio ao trajeto, imagens de desgraça se sucediam, transformando o pessimismo de Schopenhauer em possibilidade, até que num canto escuro, em meio ao relento, percebi uma forma destoante. Meio ressabiado, já fora da calçada, parei para entender o que era.
Sentado e curvado como se fosse um feto, estava um senhor idoso, coberto de pelos brancos e rugas profundas, severamente marcado pela adversidade. Na verdade, demorei pra formalizar a idéia de que realmente se tratava de alguém como eu.
Mantive-me longe e fui adiante, mas aquele rosto, aquela visão não morriam de jeito nenhum. Ao contrário, continuavam vivos, como se de repente o relógio da vida tivesse parado. Não tinha sido simplesmente mais um momento...
Como um relâmpago, uma faísca de luz que nasce e morre no vazio, senti a presença de Deus. Aquela alma cansada não estava ali à toa. Era a personificação da minha fé ! Entendi naquele instante que eu e qualquer criação mental advinda desse eu não tinham a menor importância, mas por outro lado, compreendi que TUDO está conectado de uma maneira tão holística, que é impossível a fragmentação da vida.
Deus não pode estar morto ! A morte do criador implica a morte de todos nós e de todo o cosmos, a renúncia total, a não existência, o nada.
Não posso provar que eu existo, mas preciso acreditar que sim. Se eu existo, Deus existe !

Dei meia volta, me aproximei do velho, toquei-o e, em total paz comigo mesmo, lhe ofereci ajuda.
Assustado com a minha presença, ele se protegeu e quando finalmente se sentiu seguro, recusou minha oferta. Como todo bom jovem, tolo, ignorante e despreparado para a sublimidade do amor, eu insisti e sacando a minha carteira do bolso, presenteei-o com quase todo o meu dinheiro. O homem, então, dizendo que estava tudo bem, recusou novamente. Chorei por fora, copiosamente.

Uma hora depois eu cheguei em casa, inchado e ressuscitado.


Saudações fraternais,

Fabio Machado.

Um comentário:

Alexandre disse...

hum...... isto requer um chopp....(não a parte de sair do armário é claro, mas o resto todo)
semana que vem??? depois falo com vc.