quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O luto nosso de cada dia

Estou redigindo um texto sobre imutabilidade, mas além de estar muito difícil, eu me vi inspirado para escrever sobre o luto. O texto fluiu espontâneamente e resolvi publicá-lo antes do outro. É assim mesmo...

Faz parte da vida saborear o gosto acre da morte, mas não só da extinção da animação do nosso corpo físico, como também das perdas representadas pelas recorrentes frustrações que sofremos durante nossa existência. Quase tudo morre: a inocência da infância, a altivez da adolescência, a virilidade do adulto e a experiência da velhice. A criança serena que eu fui morreu e nasceu o adolescente questionador. Esse morreu para o mancebo inquieto que morreu para mim. Mais ainda, o ontem morre para o hoje, o segundo anterior para o atual, enfim, o passado sempre morre para o presente.


A continuidade da linha do tempo implica a coexistência de vida e morte num movimento cíclico e alternado. É claro que ninguém dá valor aos inúmeros milionésimos de segundo que vêm e vão, mas não podemos ignorá-los totalmente, correndo o risco de ao final da vida termos a sensação de que ela simplesmente passou sem ser vivida. Às vezes ficamos tanto tempo presos ao passado, tentando mudar o imutável, que não percebemos o indubitável valor do presente, onde nos deparamos com as verdadeiras possibilidades e escolhas. Em outras, colocamos nosso foco no futuro, conjecturando, imaginando, planejando, prevenindo; sofrendo ou gozando experiências e sensações irreais, falsas, relegando o presente a um réles meio para um fim.

Sem morte não há vida e precisamos abraçar essa dualidade, nos concentrando no agora, porque assim viveremos uma vida que se renova a todo instante. Para aceitar a morte devemos elaborar o luto, como dizem os psicólogos, para que não fiquemos presos a esses momentos onde a vida não mais existe, onde as dualidades do maniqueísmo não se verificam.

O luto se traduz em sintomas, que podem ser divididos em fases: choque, negação, depressão e aceitação. Eu já li que entre a negação e a depressão existe a raiva, mas sendo muito sincero eu nunca experimentei esse sentimento. Talvez se eu tivesse um filho as coisas fossem diferentes, mas como não tenho... Nada é mais certo e normal do que a morte. Exceto Deus e o amor (que na minha opinião são dois símbolos do mesmo elemento), tudo que tem um início fatalmente terá um fim, porém nos enganamos acreditando na sua eternidade. Nossos relacionamentos, nossos familiares, nossos amigos, nossos bens, nossos empregos, nós mesmos, todos são finitos.

Quando perdemos algo que nos é valioso, nos frustramos e essa frustração causa um choque e é essa reação ao inevitável que então nos faz negar a realidade imposta. A vida nos priva dos nossos desejos e ao negarmos o que é real, caímos em depressão e ao refutarmos essa injustiça, sofremos mais ainda.
Ficamos, então, com impressão de que somos prisioneiros de um carrasco, e na verdade somos. Entretanto, a foice desse algoz que ora nos sangra também nos liberta, cortando as amarras que nos prendem à dor do luto. As quedas nos ensinam a levantar e com o tempo aprendemos a valorizar o que nos é concedido, a força, a experiência, a resiliência, a perseverança...

Enfim, viver é estar em constante elaboração do luto, é aceitar a realidade como ela é. Esse processo serve de ponte entre a dor e o regozijo e experimentá-lo nos humaniza, nos faz aprender que somos mortais. A morte pode até ser postergada, mas nunca deixará de vir ao nosso encontro. Ela existe fundamentalmente para nos mostrar a imagem do nosso corpo desnudo, a importância das perdas, dos fracassos, das decepções, das frustrações.

Felizmente, a felicidade só depende dos ganhos e sempre ganhamos alguma coisa, por isso, eu entendo o luto como um processo fundamental para que sejamos felizes até o fim.

Agradecimento final:

Diante da morte de outrem sofremos, não por aquele que se foi, mas por nós mesmos, pela falta que ele nos fará. Esse egoísmo se manifesta graças ao vazio que foi deixado, pela parte de nós que também morreu, mas apesar disso nosso todo continua vivo e seguimos em frente.

Tudo é uma questão de escolha, seja o sofrimento ou a gratidão pelo que já passou, o medo do que se perdeu ou o amor que se sentiu graças a ele, mas independente do caminho trilhado devemos sempre agradecer. A morte não é capaz de anular o que já foi vivido e a sabedoria está em guardar as lembranças alegres, em ser grato pela oportunidade de ter convivido com o que partiu, que na vida ou na morte faz parte de nós. Todas as nossas derrotas merecem a nossa reverência.

O agradecimento pelo passado nos regozija, ilumina o caminho do presente e nos liberta da incerteza do futuro. A elaboração do luto não é a extinção do sofrimento, mas a gratidão é o remédio que pode sustar a dor e cicatrizar as feridas abertas pela morte.

Meu tio Wellington morreu nesse último sábado. Foi ele que me apresentou os conceitos de reencarnação, de agradecimento, de meditação, foi ele que me ensinou um pouco de teoria musical, de improvisação, a tocar alguns instrumentos, a desenhar... Apesar de muitos pesares, alguém muito importante !
Ele se foi... mas continua aqui, impresso em mim na parte que lhe cabe, naquele que a partir dele me transformei.

E assim, marejado, mais uma vez eu agradeço: OBRIGADO !


Saudações fraternais,

Fabio Machado.

5 comentários:

Ju Kühne disse...

Adorei esse post! Um dos melhores até agora! ;)

A imutabilidade, d certa forma, tem relação com o luto tb!!! Pq na verdade, é impossível ser imutável!!! Tudo na vida muda o tempo todo, mesmo as coisas q são cíclicas, pq ela sai d um estado pra outro e depois retorna, mas retorna sempre de forma diferente, por ser num momento diferente, como o dia e a noite! Então nós fazemos luto o tempo todo, assim como tudo muda o tempo todo tb! A questão é: só sentimos esse luto qndo ele é egoísta, como vc disse! =D

Sabendo disso, vamos "elaborar os lutos" de nossa vida, buscando retirar o melhor do sofrimento inicial!!! Vamos buscar crescer sempre!!! E ser feliz!!! E amar, pois como vc disse, só Deus e o amor (real, "verdadeiro") não tem fim!

Raquel Oliveira disse...

Eu não costumo ficar de luto. Eu sempre vi a morte como uma coisa natural, esperava, muito previsível. A menos que seja uma catástrofe, e aí a surpresa é devido à casualidade, o fim não me choca.

Tudo tem fim. Mas o fim sempre marca outro começo. A natureza é assim. Acaba o inverno pra começar a primavera. As folhas secas caem e brotam as novas. Um presidente sai para dar lugar ao outro, o avô morre e um bebê nasce.

Ciclos.

Júlia disse...

Kbeça!!!
Definitivamente foi o melhor post até agora..
Saudades
Jubs

Raquel Oliveira disse...

Realmente sem palavras para este post.
Vejo etapas e etapas de uma vida, como diz a Raquel acima "CICLOS".
Em tudo temos que renovar, recomeçar, mesmo que for dificil, diferente e longo o novo caminho. Temos que deixar e seguir...
bjos

Raquel Oliveira disse...

Live and let die...

;)